sexta-feira, 29 de junho de 2012

História do Município de João Câmara - RN




Valho-me das luzes dos historiadores Luís da Câmara Cascudo (História de um Homem), Paulo Pereira dos Santos (Baixa-Verde: retalhos de sua história) e Paulo Alexandre da Silva (Baixa-Verde – Ontem, Hoje e Amanhã), do memorialista conterrâneo e desembargador João Maria Furtado (Vertentes) e dos relatos que me foram trazidos pelos meus antepassados, para fazer chegar aos ilustres leitores deste Jornal de Hoje como surgiu o aglomerado humano que deu origem à cidade de Baixa-Verde, hoje João Câmara.
Situada a 75 quilômetros de Natal, em plena região do Mato Grande, a cidade de João Câmara, hoje com população aproximada de 21 mil habitantes, era no início do século passado um local onde só havia mata e bichos. O povoado mais próximo, Assunção, distava três quilômetros ao norte. Na direção oeste, a uns dez quilômetros, ficava a comunidade do Amarelão dos Mendonças, composta por descendentes de índios tupis e negros. O resto, numa área de várias léguas, era só mata virgem, com raras fazendas de gado e plantações de algodão, a quilômetros umas das outras.

Em Assunção havia uma rua e um comércio florescente, realizando-se feira-livre aos sábados, Ali moravam Alfredo Edeltrudes de Souza, Ismael Maurício da Silveira.  Joaquim Câmara e João Batista Furtado que exploravam o comércio e a agricultura. Joaquim Câmara possuía uma “bolandeira” que descaroçava algodão e remetia para os centros mais desenvolvidos. Tudo fazia crer que, em poucos anos, aquela comunidade seria um núcleo populacional respeitável ou, quem sabe, uma nova cidade.

O destino de Assunção tomou novo rumo quando a rede ferroviária que adentrava ao sertão, partindo de Natal, desconsiderando a importância social e econômica do núcleo populacional existente, resolveu passar seus trilhos a uma distância de três quilômetros ao sul, num lugar conhecido apenas como Matas. Ninguém sabe ao certo o porquê de tal decisão.

Os trilhos chegaram a Matas em 12 de outubro de 1910 e a estação foi instalada provisoriamente em um vagão de trem. À frente do empreendimento o engenheiro Antônio Proença, que, apreciando o local, resolveu ali estabelecer-se. Tratou de construir casa e plantar algodão, fixando-se na terra em caráter permanente. A estrada de ferro, que estava sendo construída pela firma Proença & Gouveia, num regime de arrendamento por sessenta anos, seguiu seu curso na direção de Lajes, mas Antônio Proença, um dos sócios do empreendimento, ficou administrando os serviços a partir do local que havia escolhido como ponto de apoio.

Aos poucos o lugar foi sendo povoado. Cossacos, pequenos comerciantes e agricultores foram se instalando nas imediações da estação ferroviária. Uma nova povoação estava surgindo. Antônio Proença foi o grande incentivador da formação urbanística da cidade que estava surgindo: traçou as linhas das primeiras ruas, construiu a capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, cavou cacimbas e ergueu as primeiras casas.

O desenvolvimento do lugar chamou a atenção de quantos procuravam oportunidades de ganhos. Assunção foi aos poucos se esvaziando. Seus maiores comerciantes foram abandonando o lugar e se deslocando para a nova povoação ou para outras localidades. João Batista Furtado (pai de João Maria Furtado, avô de Roberto Furtado) e Ismael Maurício da Silveira  estabeleceram-se logo no novo povoado. Joaquim Câmara deixou também Assunção, mas preferiu ir para Cauassu, uma pequena comunidade situada a doze quilômetros a oeste, que não possuía mais que três ou quatro casas, onde só tinha a alternativa de explorar a agropecuária. Comércio ali era impossível, pois não havia gente para comprar. Alfredo Edeltrudes, também em busca de melhores dias, arrendou um engenho em Ceará-Mirim e depois comprou uma propriedade chamada Quintas, em Natal, que veio a tornar-se bairro com o mesmo nome e para lá mudou-se. Já como Prefeito, encontrei Assunção, sessenta anos depois, como uma povoação fantasma, onde só havia, salvo umas poucas casas simples,  alicerces de construções antigas e um velho cemitério abandonado, com as grossas paredes de pedras em ruínas, coberto de mato.
Informações extraídas do livro: Fatos, causos e coisas. Autor: Aldo Torquato.



Um dos filhos de Joaquim Câmara, Câmara Filho,  sentindo a impossibilidade de fazer vida em Cauassu, preferiu partir para o centro-oeste do país, fixando-se em Goiânia, onde chegou a ser secretário de estado. Logo depois, seguindo os passos do irmão, para lá se deslocaram Rebouças e Jaime Câmara, que foi Prefeito de Goiânia e deputado federal pelo estado de Goiás. Os irmãos Câmara construíram em Goiás um invejável  complexo de comunicação, formado por emissoras de rádio, televisão, jornais e gráficas que se estenderam por todo o estado, inclusive à parte norte, atualmente estado do Tocantins, chegando ao Distrito Federal.. Dentre os veículos de maior envergadura, destacam-se os jornais O Popular, de Goiânia, e o Jornal de Brasília, além da TV Anhanguera, afiliada à rede globo.

Enquanto isso, de outras regiões do estado, pessoas ávidas por melhores oportunidades de ganhos deslocavam-se para Baixa-Verde. Atraiam-nas a localização estratégica do lugar, porta de entrada da região denominada de Mato Grande, com milhares de hectares de terras devolutas, porém de boa qualidade, próprias para o plantio de qualquer lavoura, mormente o algodão, chamado de “ouro branco”, tal o seu valor e importância no contexto econômico da época. Sendo terras devolutas, e por isso mesmo tidas como sem dono, qualquer pessoa poderia demarcar a sua área, cercar quantos hectares achasse que poderia cuidar. O horizonte era o limite. Foi para esse novo eldorado que foram homens como Fernando Gomes Pedrosa e João Severiano da Câmara.

Fernando Pedrosa (pai do ex-governador Sílvio Pedrosa), instalou-se na região  logo após a chegada dos trilhos da rede ferroviária, plantando algodão num lugar denominado “ barriguda” (que tinha de fato uma grande árvore com esse nome à margem da estrada, criminosamente derrubada há uns vinte anos por ocasião do asfaltamento da estrada João Câmara/Caiçara do Norte).
João Severiano da Câmara chegou em 06 de junho de 1914, tendo ao seu lado o irmão Jerônimo, conhecido como Loló. Alexandre, outro irmão, veio depois. Os três, depois de anos a fio explorando a agricultura e o comércio, fundaram a firma João Câmara e Irmãos. Câmara Cascudo nos dá conta da existência de dois pequenos comerciantes: José Antunes de França, cuja vendinha ficava perto da Igrejinha e Luiz Cordeiro, conhecido como “Luiz Rei de França”, que negociava na esquina da futura pracinha.
No dizer de Câmara Cascudo, “a Estrada de Ferro ocupava duas grandes turmas de trabalhadores, uma na Melancia e outra batendo o malho nas pedreiras do Torreão. Pagos, vinham derramar o saldo em Baixa-Verde, bebendo até a náusea, comprando tudo e brigando por cousa nenhuma. Não havia policiamento, nem defesa. A povoação não tinha ruas, apenas os alinhamentos riscados pela mão grossa do Dr. Proença”.

Como já tive a oportunidade de mencionar anteriormente, os habitantes de Assunção chamavam o lugar onde a estrada de ferro se instalara simplesmente de Matas, porém os novos habitantes preferiram denominá-lo de Baixa-Verde, por situar-se em uma região de baixo relevo e solo arenoso, coberto por uma gramínea sempre verde, mesmo nas épocas de secas mais intensas. Coube ao Dr. Antônio Proença oficializar o nome Baixa-Verde apondo-o na fachada da Estação Ferroviária que construíra. Na chamada “graminha”, até os vinte e cinco anos, joguei “peladas” inesquecíveis.
Com o passar dos anos, ironicamente, Assunção passou a ser chamada pelos habitantes da nova povoação de “Baixa-Verde Velha”, denominação que não se consolidou, mas que persistiu no falar cotidiano até uns trinta anos atrás.

Pouco depois da chegada da estrada de ferro, chegaram a Baixa-Verde, entre os anos de 1915 e 1920, meu avô, Pedro Torquato, vindo da região conhecida como beira-do-rio e Antônio Justino de Souza, entre tantos outros desbravadores. Foi também por aquele tempo que nasceu no lugar um menino a quem os pais deram o nome de  Gumercindo Saraiva, que se fez músico, comerciante e  folclorista, há alguns anos falecido em Natal, onde ainda moram sua esposa e seus filhos. Gumercindo foi amigo de infância de meu pai, Abdon Torquato. Devemos a esta saga de homens acostumados ao trabalho duro, que se iniciava com os primeiros raios de sol e só terminava ao escurecer, arrancando mato com a força dos seus braços, esfolando as mãos, queimando a pele, dormindo muitas vezes no meio do roçado em cabanas improvisadas cobertas de capim e galhos de árvores, a construção dos alicerces daquela que seria a capital da região do mato grande, elevada à condição de cidade, sede do município do mesmo nome, pela Lei nº 697, de 29 de outubro de 1928, promulgada pelo então governador Juvenal Lamartine de Faria. Seu território foi constituído inicialmente por partes de terras desmembradas dos municípios de Taipu, Touros e Lages, e estendia-se até os mares do norte, açambarcando os povoados de Parazinho, Pedra Grande, São Bento do Norte, Caiçara e Galinhos.
Informações extraídas do livro: Fatos, causos e coisas. Autor: Aldo Torquato.
A Serra do Torreão


Situada no município de João Câmara, a 80 km da capital e pertencente à região do Mato Grande, a serra do Torreão é a sentinela mais avançada do grande planalto da Borborema, no sentido norte-oriental. É um iceberg solitário, com 145 metros de altura, de fácil escalação, recoberto de vegetação hipoxerófila, onde predominam, inclusive, palmeiras nativas chamadas de “coco-catolé” e cientificamente por siagrus coomosa, isoladas ou em densos agrupamentos. Há, também, euforbiáceas e mimosáceas, bem como a presença de exóticas, como a euphorbia tirucali, popularmente conhecida como “dedinho”  ou “avelóz”, que é utilizada localmente como cerca viva, com um látex terrivelmente cáustico que, segundo populares, tem poderes medicinais contra afecções benignas e malignas da pele. Em seu cimo, formado por uma calva granítica, conhecida como Pedra do Urubu, descortina-se uma belíssima paisagem. No seu sopé, há uma capelinha dedicada a São Sebastião, santo festejado efusivamente a 20 de janeiro pela população local que, após os atos litúrgicos, costuma subir a serra até o seu cimo.

Desde 1977, quando foi firmado um convênio entre a UFRN e a Prefeitura Municipal, na época administrada pelo prefeito Aldo Torquato, realizou-se importante estudo sobre a flora e a fauna da serra do Torreão, desde então considerada oficialmente o símbolo da cidade. O referido trabalho, chamado projeto Torreão, ocorreu de abril de 1977 até dezembro de 1978, com a aquisição de farto material zoológico, infelizmente perdido por falta de sua conservação, no âmbito da UFRN. Ainda dispõe-se de três livros de tombo, dois dos quais contendo relatórios e fotografias do projeto e um contendo toda a documentação fotográfica de uma exposição realizada na primeira semana de dezembro de 1977, durante a festa da padroeira local,

Nossa Senhora Mãe dos Homens, na sala nobre do Colégio João XXIII. Cerca de 2.700 pessoas a visitaram, num acontecimento inédito para a região e para a própria cidade. Tais livros de tombo estão guardados na reserva técnica do Museu de História Natural do Seridó, na Estação Ecológica do Seridó, Serra Negra do Norte-RN, e tão logo se concretize um Museu de História Natural de João Câmara, para lá serão deslocados.

Posteriormente, do final da década de 80 para o início da década de 90,  houve tentativas fracassadas de recomeçar o Projeto Torreão, mas faltou o apoio tanto da UFRN quanto da própria prefeitura municipal.
A vegetação da serra do Torreão é composta de duas formações de caatinga. Uma,  é a caatinga hipoxerófila com uma vegetação de clima semiárido, que apresenta arbustos e árvores com espinhos e de aspectos menos agressivos do que a caatinga hipertermófila. Dentre as espécies, destacam-se a catingueira, angico, braúna, juazeiro, marmeleiro, mandacaru e aroeira. A outra formação é a caatinga hipertermófila, que apresenta uma vegetação de caráter mais seco, com abundância de cactáceas e plantas mais espalhadas e  de porte mais baixo. Dentre outras espécies destacam-se nesse ambiente a jurema preta, o faveiro, o marmeleiro, o xiquexique e  o facheiro.

Os solos predominantes na serra do Torreão são os seguintes: areias quartzosas distróficas com fertilidade natural baixa, textura arenosa, relevo plano, excessivamente drenado; podzólico vermelho amarelo, equivalente eutrófico, com fertilidade natural alta, textura média, relevo plano, moderada e imperfeitamente drenado, medianamente profundo; cambissolo eutrófico, com fertilidade natural alta, textura média, relevo plano, medianamente profundo.
As pesquisas realizadas pelo biólogo Adalberto Varela, da UFRN e coordenadas pelo professor José Aldo Monteiro, do grupo GENV, um dos entusiastas com o estudo e preservação da serra do Torreão, descobriram várias espécies desconhecidas na sua fauna rica de insetos aracnídeos, lagartos, serpentes, moluscos terrestres, aves e mamíferos. Ao todo, foram encontradas treze espécies de serpentes, mas a grande surpresa foi a descoberta de larvas de formiga-leão, da família dos neurópteros e uma espécie rara de escorpião preto, até então desconhecida da biologia, o Rhopalurus baixa-verdenses que, por se tratar de uma espécie nova, recebeu o nome em homenagem à cidade.
Outra espécie rara, conhecida vulgarmente como  Lagarto Rex, de tamanho pouco superior a uma lagartixa e menor que um Tejuaçu, também é encontrada no local ,e somente nele, em toda a região do Mato Grande. AS LENDAS QUE ENVOLVEM A SERRA DO TORREÃO

Conta o professor Gino Miranda, nascido na localidade Corte, quase ao pé da serra do Torreão, que, durante muitos e muitos anos, corria à boca pequena que, na década de vinte do século passado, um certo Júlio dos Matias, dado a pitar um inseparável cachimbo – de onde saíam abundantes baforadas -, mulato muito querido e conhecido em Baixa-Verde, por conta das suas histórias fantasiosas, gostava muito de caçar na serra. Os amigos sempre o preveniam dos riscos que corria, visto que uma onça habitava o lugar. Certo dia o mulato Júlio foi caçar e não retornou à noite, como era de costume.
Apreensivos, os amigos e familiares foram à sua procura logo que raiou o dia e só encontraram os seus restos mortais graças a uma fumacinha que saía do cume da serra, onde fica a chamada pedra do urubu. Tal fumaça foi entendida como sendo um indicativo do local onde o corpo estava e teria saído, segundo os supersticiosos, do cachimbo do velho. Assim nasceu a lenda do Torreão Cachimbando, que na época servia para explicar o fenômeno meteorológico que ocorre nas serras em época de grandes invernadas, em dias mais frios, principalmente nas primeiras horas do dia, quando o cume da serra amanhecia todo envolvido por uma densa camada de nuvens, que se desfazia logo que o sol começava a esquentar.

Muitas pessoas diziam também que os estrondos que davam em Baixa-Verde eram por conta de uma cama de baleia que havia debaixo da serra. Segundo a crendice popular, o local, muito antigamente, fora mar e um grande reservatório de água se escondia por sob a serra. Nesse reservatório, morava uma baleia gigante que, quando se movia, provocava os estrondos.

OS PASSEIOS PELA SERRA DO TORREAO

Uma das coisas mais gostosas de se fazer, é visitar a serra do Torreão, principalmente nos períodos invernosos. Além do contato com a natureza, inclusa vegetação remanescente da Mata Atlântica, tem-se uma ampla e bela visão de parte das regiões do Mato Grande e Central.
Do alto da serra do Torreão são avistadas, num raio de, aproximadamente, setenta quilômetros, as seguintes localidades: ao poente, num primeiro momento,  as localidades de Pedra D`água, Amarelão e o Assentamento Santa Terezinha. Lançando-se o olhar na linha do horizonte, a serra do Cabugi, por inteiro, a uma distância de aproximadamente 50 quilômetros em linha reta; ao nascente, no sopé, o açude Grande, construído por ocasião da passagem da rede ferroviária. Logo a seguir, a cidade de João Câmara. Mais ao longe, a BR-406, cujo eixo foi construído tendo por azimute o cume da serra, e as comunidades de Assunção, Matão, Cravo, Aroeira, Arizona e Samambaia, esta já no município de Poço Branco, e a Serra Pelada, no município de Taipu; ao Norte, pras bandas das praias, avistam-se as comunidades de Morada Nova,  Breginho, Assunção, diversos Assentamentos Rurais e a Serra Verde, com todas as comunidades situadas no seu lombo; ao sul, podem-se ver todas as comunidades que margeiam o rio Ceará-Mirim (Pousa, Ladeira Grande, Passagem dos Caboclos, Passagem de Pedra, Várzea do Domingo, Riacho Fundo, Riacho da Fazenda  e Valentim), e as cidades de Bento Fernandes e Santa Maria, esta localizada a mais de 50 quilômetros em linha reta e  seus respectivos povoados.

Durante o inverno, quando todo o chão vislumbrado a partir do cume da serra do Torreão parece um tapete multicolorido, com diversas tonalidades de verde e azul, proveniente dos campos e dos espelhos d’água dos açudes, barreiros e riachos cheios,   a visão que se tem do alto da serra é simplesmente encantadora.
Informações extraídas do livro: Fatos, causos e coisas. Autor: Aldo Torquato.
Antônio Proença, o fundador de Baixa-Verde
Não existe hoje qualquer dúvida sobre quem foi o verdadeiro fundador de Baixa-Verde. Durante muitos e muitos anos, atribuiu-se o privilégio ao ex-senador e empresário João Severiano da Câmara. De fato, João Câmara foi durante anos a figura mais proeminente do município e dizer que teria sido o fundador da cidade era até mesmo motivo de orgulho para os seus habitantes. O próprio nome da cidade, João Câmara, impelia as pessoas a pensarem ter sido aquela figura o seu fundador inconteste.

Hoje, passado o calor da influência do poderia político e econômico exercido pelo eminente cidadão, todos os analistas concluem, sem qualquer receio, que o verdadeiro fundador da cidade foi o engenheiro Antônio Proença. A propósito, trago à luz o depoimento do comerciante Melcíades de Souza, ele mesmo um dos primeiros habitantes do lugar, nascido aqui no ano de 1913, “quando havia apenas quarenta ou cinquenta casas”, como costuma dizer.

Pois bem. Assim relata o velho Melcíades, do alto dos seus noventa e cinco anos, em depoimento gravado por mim em sua residência na rua João Furtado, na manhã do domingo, 17 de fevereiro do corrente ano de 2008: “engana-se quem pensa que João Câmara foi o fundador de Baixa-Verde. Quando João Câmara chegou nesta terra, no ano de 1914, já existiam cinquenta ou sessenta casas. O verdadeiro fundador de Baixa-Verde foi Antônio Proença, que chegou aqui em 1909, e construiu quatro casas, sendo uma delas para ele mesmo morar com a sua esposa, Dona Malvina”.
Mais adiante, continua Melcíades de Souza no seu esclarecedor depoimento: “João Câmara quando chegou aqui era um rapazote de dezenove anos de idade e botou um comércio pequeno com apenas duas portas, somente depois de alguns anos é que foi crescendo, até que fez fortuna. Vários outros comerciantes chegaram antes dele, como João Furtado, pai do doutor João Maria e Alfredo Edeltrudes. Dr. Proença era um homem gordo, alvo, com uns 45 anos de idade, gente muito boa, que eu tive a oportunidade de conhecer. Além de ser engenheiro, Dr. Proença era também agricultor, possuindo dois roçados: um aqui na margem do açude grande, onde plantava algodão, milho, feijão e mandioca e outro lá pras bandas do Lajeado, onde inclusive tinha uma caieira”.

O relato do velho Melcíades de Souza corresponde exatamente ao que diz o conterrâneo Paulo Pereira dos Santos, em sua obra Um Homem Admirável”, na qual traça o perfil do senador João Severiano da Câmara. Diz Paulo Pereira: quando João Câmara chegou a Baixa-Verde, de frente à Estação Ferroviária existia o barracão de Alfredo Edeltrudes, vendendo aos cossacos víveres e outras mercadorias de consumo. Havia a bodega de José Antunes de França e na esquina outra de Luiz Carneiro. Como ainda continuasse a construção da Estrada de Ferro, estendendo-se para Lages, Dr. Antônio Proença permanecia residindo em Baixa-Verde. Segundo algumas pessoas idosas da sua época, ele era um homem gordo, de andar lento e boa pessoa. Gostava de criar cavalos de sela e vacas de alta linhagem genética. Plantava algodão e outras culturas de subsistência. Promovia grandes festas na sua casa, reunindo os mais importante moradores da vila. Mais dois engenheiros, também contratantes da Estrada de Ferro, residiam no povoado, Otávio Pena, baixinho, olhos brilhantes sob a armação de um pince-nê espelhante, filho do Presidente da República, Afonso Pena, que havia inaugurado a Estrada de Ferro. E outro engenheiro, Eduardo Parisot, de estatura alta, magro e cortês. Morava também em Baixa-Verde, o técnico Fernando Gomes Pedroza, que dirigia o Campo Experimental de Algodão no Riacho Seco”.

Caso ainda paire alguma dúvida sobre a identidade do verdadeiro fundador de Baixa-Verde, eis o relato insuspeito do grande historiador e folclorista Câmara Cascudo, em sua obra História de um homem (João Severiano da Câmara – página 31, edição de 1954 – Departamento de Imprensa Estadual): em 12 de outubro de 1910 inaugurava-se Baixa-verde. Uma locomotiva deixou um vagão com o aparelho telegráfico e servia de estação. Ao redor os ranchos surgiram da terra, a 83.952 metros de Natal. Nem havia no local nome certo. Diziam “Matas”. Eram capoeirões baixos, moitas na várzea verde e tranquila. O nome passou ao ponto terminal da Estrada dos Proenças, quando Antônio Proença veio, alto, gordo, lento, imenso, residir na casa que construiu, confortável e abrigadora. Chamou-se então Baixa-Verde. Era esse Antônio Proença o denominador comum da estrada. Representava o trabalho. Discutiram-no muito no choque de interesses em que ele próprio seria o maior. Devemos-lhe Baixa-Verde no plano real. Escolheu o local, riscou as ruas, ergueu as casas, cavou cacimbas, construiu a capela dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens. Lembro-me da sua figura imponente, da amplidão do vulto nédio, o traje de branco, o chapéu do Chile, os bigodes negros, o toutiço de zebu, a fala grossa, o gesto sereno, a simplicidade completa, a bondade útil, oportuna inesgotável. Tinha o hábito do conforto, da mesa farta, variada, aberta, fácil, da conversa gostosa, da pilhéria de sal grosso, os costume do banho diário, as roupas asseadas, o tratamento fidalgo. Incapaz de uma grosseria, cordato, amável, ia desarmando a todos com uma grandeza tranquila de paciência, tenacidade e disciplina. Era o Dr. Proença de Baixa-Verde, plantando também algodão, criando gado de raça, vacas de lei estrangeiras, que assombravam pela quantidade do líquido esguichando cada manhã e cada tarde. E cavalos robusto, com selas inglesas. E armas reluzentes, disparando sem parar para as breves caçadas senhoriais. Deixou uma lembrança viva e há muita gente que ainda o  enxerga, vagaroso, imenso, cumprimentador, inventando Baixa-Verde e organizando bailes intermináveis. Para essa Baixa-Verde recém nascida, de vida indecisa, Vanvão deliberara fixar destino, vida esforço e futuro”.

Resta, então apenas uma indagação a esclarecer: por qual razão Antônio Proença caiu no quase completo esquecimento, sendo apenas o nome de uma rua na cidade que fundou?
A resposta quem nos dá, mais uma vez, é o velho Melcíades de Souza: “quando os serviços de construção da estrada de ferro pararam lá pras bandas de Angicos e São Rafael, o Dr. Proença continuou em Baixa-Verde plantando algodão na beira do açude grande, feijão, milho, mandioca e também na fazenda que depois se chamou de Marajó, e montou uma caieira no Lageado. Somente por volta de 1925 pra 1926 foi que o Dr. Proença, meio adoentado,  resolveu ir embora, vendeu tudo e foi pra outras regiões com a sua empresa. Acho que voltou pra Minas Gerais donde provinha. Dr. Proença não tinha filhos com dona Malvina.” Razão pela qual, digo eu,  não deixou herdeiros, que pudessem continuar a sua obra, nem elucidar com mais clareza a vida  do verdadeiro fundador da nossa cidade.

Espero que esses relatos incontestes, desapaixonados e lúcidos, que se encaixam formando um todo irrefutável, contribuam para se colocar a história da fundação da nossa cidade no seu leito natural, sem falsas afirmações, que não condizem com a realidade histórica. João Câmara foi o maior empresário, político de renome, a figura de maior destaque no contexto estadual, mas o fundador de Baixa-Verde foi o Dr. Antônio Proença, inclusive oficializando-lhe o nome, pois precisava apor no prédio da estação ferroviária, que construíra, o nome do lugar e ali apôs: Baixa-Verde.
Informações extraídas do livro: Fatos, causos e coisas. Autor: Aldo Torquato.
Datam mais significativas da cidade
1850 – Ano provável da formação do primeiro povoado no município: o Amarelão dos Mendonças. Posteriormente, em data próxima, surgiram Assunção e Cauassu;
08 de março de 1895 – Nascimento de João Severiano da Câmara, em Boa Vista, município de Taipu;
12 de outubro de 1910 – Inauguração da Rede Ferroviária pelo Dr. Antônio Proença, engenheiro proprietário da empresa arrendatária da obra, que chegara à localidade no ano anterior – Fundação do povoado de Baixa-Verde, conforme a Lei Municipal nº 272/08;
06 de junho de 1914 – Chegada de João Severiano da Câmara a Baixa-Verde;
1915 – Construção da Capela Nossa Senhora Mãe dos Homens pelo Dr. Antônio Proença e sua esposa D. Malvina (atual capela Nossa Senhora de Fátima);
02 de junho de 1915 – Nascimento de Gumercindo Saraiva – Dia da Cultura, instituído pela Lei municipal nº  64/2001;
26 de dezembro de 1927 – Inauguração do Grupo Escolar Cap. José da Penha;
25 de março de 1928 – Fundação do Baixa-Verde Futebol Clube;
29 de outubro de 1928 – Emancipação política do município de Baixa-Verde – Lei Estadual nº 697 – Feriado Municipal;
25 de novembro de 1928 – Eleição em Pureza (então município de Touros) do Prefeito e dos Intendentes (vereadores) ;
1º de janeiro de 1929 – Posse do primeiro Prefeito, João Severiano da Câmara, e dos primeiros Intendentes (vereadores);
13 de novembro de 1929 –  Criação da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens;
11 de junho de 1935 – Criação da comarca – Lei estadual nº 852;
24 de novembro de 1935 – Intentona comunista;
12 de dezembro de 1948 – Falecimento de João Câmara – Feriado Municipal;
19 de novembro de 1953 – Mudança do nome do município para João Câmara – Lei Estadual nº 899;
13 de fevereiro de 1958 – Chegada do padre Luiz Lucena Dias;
1970 – Inauguração da energia elétrica de Paulo Afonso – administração do prefeito Manoel Anacleto, sendo governador do estado o Mons. Walfredo Gurgel;
09 de dezembro de 1977 – Inauguração do telefone pelo sistema DDD – Discagem Direta à Distância – administração do prefeito Aldo Torquato, sendo governador do estado o Dr. Tarcísio Maia;
29 de outubro de 1978 – Comemoração do cinquentenário de emancipação política – administração do prefeito Aldo Torquato, primeiro filho da terra a assumir a Prefeitura Municipal;
29 de outubro de 1982 – Inauguração do Abastecimento D’Água – administração do prefeito Aldo Torquato, sendo governador do estado o Dr. Lavoisier Maia Sobrinho;
30 de novembro de 1986 – Ocorrência do maior terremoto: 5,3 na escala Richter – posterior visita do então Presidente da República, José Sarney ao município;
18 de novembro de 1995 – Decretada a Intervenção Estadual em João Câmara. Afastamento do prefeito José Ribamar Leite, sendo nomeada interventora a senhora Mônica Dantas;
01 de janeiro de 2005 – Toma posse, como primeira prefeita eleita do município, a senhora Maria Gorete Leite, que vencera as eleições municipais de 03 de outubro de 2004;
Informações Estatísticas
Município de João Câmara, desmembrado dos municípios de Taipu, Touros e Lages.
Localização: microrregião de Baixa-Verde, na Zona Homogênea do Litoral Norte. Suas coordenadas geográficas são: 05º32`e15“ latitude sul e 35º49’11” longitude Oeste.
Área: 715 Km2, equivalente a 1,5% da superfície estadual.
Altitude da sede em relação do nível do mar: 160 metros.
Distância em relação à capital: 75 km.

Limites: ao Norte, com Parazinho e Touros; ao Sul, com Bento Fernandes; ao Leste, com Touros, Pureza e Poço Branco e a Oeste, com Jandaíra, Pedra Preta e Jardim de Angicos.
Clima: árido e semiárido ao sul, com precipitação pluviométrica média anual de 648,6 mm. Período chuvoso de março a julho. Temperatura média anual de 24,7ºC, sendo a mínima de 21º e a máxima de 32º. Umidade relativa média anual de 70% (setenta por cento).
População (2007):
30.423 habitantes*, sendo 15.007 homens e 15.277 mulheres, residentes em 9.017  domicílios.
População urbana: 20.930
População Rural: 9.493
Veículos (2006):
Automóveis……………………….. 1.027
Caminhões …………………………..200
Caminhonetes………………………142
Ônibus…………………………………….18
Micro-Ônibus…………………………….7
Motocicletas……………………… 1.347
Motonetas……………………………..166
De acordo com informações prestadas pelo Cartório Eleitoral da 10ª Zona, em fevereiro de 2008 estavam aptos a votar 22.721 eleitores, sendo 11.020 homens e 11.701 mulheres.
* No total está também a população estimada residente nos domicílios fechados.
Fontes: IBGE, EMPARN e Cartório Eleitoral da 10ª Zona




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